Alice e o Gato de Cheshire



"- Poderia dizer-me, por favor, que caminho hei-de tomar para sair daqui?
- Isso depende de onde queres chegar! - Disse o Gato.
- Não interessa muito para onde vou... - retorquiu Alice.
- Nesse caso, pouco importa o caminho que você escolha - interpôs o Gato.
- Desde que chegue a algum lado! -Acrescentou Alice, fazendo não se importar muito com a explicação!"


Alice no País das Maravilhas -  Lewis Carroll

Poema De Amor À Maneira Pré-Socrática

Alguns dos meus achados e postados aqui nesse blog, que embora empoeirado, ainda não foi esquecido, vem das matérias que leio das minhas muitas revistas de filosofia, o poema que posto, foi publicado em uma matéria como titulo de: A fronteira comum entre Filosofia e Poesia; por Jorge Luis Gutiérrez.
Achei sensacional o poema, e decidi postar, para colaborar com curiosos, e amantes de filosofia e poesia como eu!



Poema De Amor À Maneira Pré-Socrática

Neste instante
diante do brilho do sol
e diante da suave
doçura da luz
que declina sobre o
cosmo,
dou-me conta
que tu és
minha água,
meu ar,
meu fogo,
minha terra.

Que és
infinita e persistente.
Imperecível,
perene,
inextinguível,
pertinaz,
inesgotável.

Em ti me encontro
e me diluo.
em ti me reúno
e me dissolvo.

E te amo
quando te moves
e quando não te moves.
Quando mudas
e quando não mudas.

Pois és o Princípio:
amoroso e erótico.
És a Causa:
primordial e sublime.

És Sedução ilimitada:
harmonia perfeita
da forma e do limite.

Concórdia consumada:
da beleza e da linha.

És fogo
que nunca se extingue:
que me queima e me
excita,
consome-me e me
alimenta.

És a impossibilidade
lógica do não-ser:
pois és.

E sendo existes
e existindo vives,
e vivendo és vida
e sendo vida és
duração...

E permaneces no
infinito:
de nada careces.
Nada te falta:
és a plenitude do ser.

E sob o ardente sol
eu tento compreender
a infinidade de tua
figura.

Tento entender
como a forma e o
encanto
se uniram em teu corpo.

E depois percebo
somente
tua materialidade.
Teu existir,
evidente, sensitivo,
visível, notório,
patente, indubitável.
E te vejo:
estás ali,
estás no lugar
que ocupas.
Estás no espaço de teu
ser.
E teu lugar é teu luga.

E nada te sobra
e nada te falta:
estás ali
plena e suficiente.

Estás no espaço
e no tempo.

E és matéria desejada.
Substância cobiçada.

E amo
os detalhes de tua
natureza 
e a realidade de teu
prevalecer.
Amo tua alma:
plena e contingente.
Amo quando passas
de potência ao ato.

Da sensibilidade
à supra-sensibilidade.

E amo quando
posso percorrer
em tempos finitos
tua compleição infinita.

Amo quando me
revelas teu ser
e eu sei que és.

Amo quando és
suficiente.
Quando não me faltas,
quando és,
quando não és ausência,
quando és plenitude.
Quando tua presença
me basta.
Quando não és
escassez,
nem vácuo.

Quando sou feliz
somente
porque sei que existes,
e tão só porque existes.

Te amo
quando nada me é
escasso
neste universo
porque tu estás aqui.
E parece que no mundo
não há nada mais que
tu:
porque transbordas
e és profusão
caudalosa.

Então penso
que no principio eras
água,
eras água de chuva,
água de uma lágrima,
água de um beijo,
água de um desejo,
água na cálida
umidade de teu corpo:
umidade primordial,
fundamental,
essencial,
inata,
primária.
Eras água...
singela água
na gênese de teu ser.

E então
penso no ar
mexendo teu cabelo
e induzo que és ar...
vento que vai e que vem.

Espírito desta terra
ensolarada e generosa.

És turbilhão que atinge
minha alma
e me infunde prazer,
és sopro essencial, 
alimento saboroso.

E depois penso que és
Sol:
que és chama,
destelho e esplendor.
E te amo quando o sol
se detém em
tua pele.

Amo ver-te sob o céu
na sideral calma
de um meio-dia

Te amo quando
entregas
o fulgor de teu olhar
e deixas em minha alma
o gostoso sabor da
vida.

E a teu lado sou grato.
Sob tua luminosidade
me encho de gratidão,
e me abro à suave
e à fraternal lucidez
da simplicidade
da tarde,
caindo benévola
sobre teu sorriso,
pelas ruas
de uma cidade
farta de vida.

Fragmentos de Ternura, Filosofia e Desterro, de Jorge Luís Gutiérrez

Correspondences - Charles Baudelaire


Correspondências 

A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam sair às vezes palavras confusas:
Por florestas de símbolos, lã o homem cruza
Observando por olhos ali familiares.

Tal longos ecos longe lá se confundem
Dentro de tenebrosa e profunda unidade
Imensa como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se transfundem.

Perfumes de frescor tal a carne de infames,
Doces como o oboé, verdes igual ao prado,
-Mais outros, corrompidos, ricos, triunfantes,

Possuindo a expansão de um algo inacabado,
Tal como âmbar, almíscar, benjoim e incenso,
Que cantam o enlevar dos sentidos e o senso.



Correspondences

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et pronfunde unité,
Vast comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

Il est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
-Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui Chantet le transport de l'esprit et des sens.

Charles Baudelaire

LIBERDADE (Voltaire)

Verbete do "Dicionário Filosófico"
LIBERDADE (DA)

A – Eis uma bateria de canhões que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de não a ouvir?

B – É claro que não posso evitar ouvi-la.

A – Desejaríeis que esse canhão decepasse vossa cabeça e as de vossa mulher e vossa filha que estivessem convosco?

B – Que espécie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, em meu são juízo, desejar semelhante coisa. Isso me é impossível.

A - Muito bem; ouvis necessariamente esse canhão e, também necessariamente, não quereis morrer, vós e vossa família, de um tiro de canhão; não tendes o poder de não ouvi-lo nem o poder de querer permanecer aqui.

B - Isso é evidente

A - Em conseqüência, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhão: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos?

B - Nada mais verdadeiro

A - E se fôsseis paralítico? Não teríeis podido evitar ficar exposto a essa bateria; não teríeis o poder de estar onde agora estais: teríeis então necessariamente ouvido e recebido um tiro de canhão e necessariamente estaríeis morto?

B - Nada mais claro

A - Em que consiste, pois, vossa liberdade, se não está no poder de fazer o que a vossa vontade exigia com absoluta necessidade?

B - Embaraçais-me; então a liberdade nada mais é senão o poder de fazer o que bem entendo?

A - Refleti um pouco. Vede se a liberdade pode ser outra coisa.

B - Neste caso o meu cão de caça é tão livre como eu; ele tem necessariamente a vontade de correr quando vê uma lebre e o poder de correr se não estiver doente das pernas. "Eu nada tenho, pois, mais do que meu cão, reduzis-me ao estado das bestas"

A - Eis uma série de pobres sofismas dos pobres sofistas que vos instrtuíram. Eis que estais despeitado por não serdes livres como vosso cão. Ora, a sede, o velar, o dormir, os cinco sentidos, não são em vós como nele? Pretenderíeis cheirar com outro qualquer órgão além do nariz? Por que quereis uma liberdade diferente da que ele tem?

B - Porém eu tenho uma alma que raciocina muito bem, e o meu cão não pensa coisa alguma. Ele apenas tem idéias simples, enquanto eu tenho mil idéias metafísicas

A - Pois muito bem! Sois mil vezes mais livre do que ele, isto é, tendes mil vezes mais poder de pensar do que ele; porém vossa liberdade é perfeitamente igual à dele

B - Como? Eu não tenho a liberdade de querer o que desejo?

A - Que entendeis com isso?

B - O que toda gente entende. Não se diz diariamente: "As vontades são livres"?

A - Um provérbio não é uma razão, explicai-vos melhor

B - Penso que sou livre de querer como melhor me agradar

A - Com vossa licença, isso não tem o mínimo sentido; não percebeis que é ridículo dizer: "Eu quero querer"? Necessariamente, vós desejais em conseqüência das idéias que se vos apresentam. Quereis casar, sim ou não?

B - Mas se eu vos disser que não quero nem uma nem outra coisa?

A - Responderíeis como aquele que disse: "Uns pensam que o cardeal Mazarino está morto; outros, que está vivo; eu não creio nem nuuma coisa nem noutra"

B - Pois bem, quero casar-me

A - Isto é responder! Por que quereis casar?

B - Porque estou apaixonado por uma bela rapariga, bem-educada, muito rica, que canta muito bem, filha de pais honestos e que me ama, assim como sua família

A - Eis uma razão. Vedes, pois, que não podeis querer sem razão. Declaro-vos que tendes a liberdade de vos casar: isto é, que tendes o poder de assinar o contrato

B - Como! Eu não posso querer sem motivo? Que sucede então a este outro provérbio: Sit pro ratione voluntas: minha vontade é minha razão, quero porque quero?

A - Isso é absurdo, meu caro amigo, pois haveria em vós um efeito sem causa

B - Quê? Quando jogo par ou ímpar tenho então um motivo para escolher par em vez de ímpar?

A - Sim, sem nenhuma dúvida

B - E qual é esta razão, por obséquio?

A - É que a idéia de par se apresentou ao vosso espírito mais do que a idéia oposta. Seria muito cômico que nalguns casos desejásseis por existir uma razão para o vosso desejo e que noutros desejásseis sem motivo. Quando vos quereis casar, sentis a razão dominante, evidentemente; não a sentis quando jogais par ou ímpar, e contudo é mister que exista uma

B - Mas, uma vez ainda: sou ou não sou livre?

A - Vossa vontade não é livre, mas vossas ações o são. Tendes a liberdade de fazer quando tendes o poder de fazer.

B - Mas, todos os livros que li sobre a liberdade de indiferença...

A - São tolices: não existe liberdade de indiferença; é um termo destituído de senso, inventado por pessoas que não o possuem.

Da Liquidez Dos Relacionamentos


                                                                                persistences of memory - Salvador Dali

A magia romântica do amor dissolveu se na velocidade da vida dinâmica em que vivemos na vertiginosa era da alta tecnologia. Por temermos a proximidade com o outro, preferimos entao abrir mão das relações amorosas concretas para adentrarmos na dimensão das relaçoes virtuais. Conforme os dizeres de Zygmunt Bauman, “ e preciso diluir as relações para que possamos consumir las.”

O mundo virtual, que deveria proporcionar a aproximação entre os indivíduos, acaba então motivando ainda mais a ruptura interpessoal!

Dos Imortais I

Uma coisa que me impressiona além da notoriedade de um gênio, muitas vezes é a sua personalidade, seu caráter - digo isso por trabalhar também em meio artístico. É comum gerarmos em nossas ideias que o ídolo que admiramos é dotado de tamanha sensibilidade em sua arte, que te comove as vezes ate deixando em prantos por tamanho dom de tocar a sua alma. Mas em muitos casos somos nós quem construímos esses "heróis". É quando nos deparamos com um ídolo de cara podemos ter acesso a verdade, onde existe um contraste, nítido e absurdo, entre sensibilidade e insensibilidade, em tons de rudez e hostilidade, quando nos deparamos com a real proliferação que amana dentro desses seres magníficos que visávamos serem seres perfeitos dotados de uma sensibilidade descomunal. Existem muitos na historia, mas pra mim nenhum tão impressionante quanto Beethoven. "Os Relatos dos contemporâneos são implacáveis: para ele, o compositor era feio, malvestido e até repulsivo de tão sujo..." .*
Aparentemente ao conhecer Beethoven, (o meu escritor e poeta favorito), Wolfgang von Goethe comentou com um amigo: "Seu talento impressionou-me , mas infelizmente tem uma personalidade indomesticada. Não está de todo errado ao considerar o mundo repulsivo, mas sem dúvida não faz esforços para torná-lo mais agradável para ele ou para outros. Deve-se mostrar-lhe compaixão, pois está perdendo a audição, coisa que afeta menos seu lado musical que o social."*
Beethoven estendia sua sensibilidade para além das suas obrar atemporais. Existem relatos de cartas escritas por ele a sua intitulada "Amada Imortal" (nome até de um filme A Minha Amada Imortal).
Como romântico assumido, fã de Beethoven, e curioso por cartas intimas de meus ídolos, gostaria de compartilhar duas cartas que expressam (mais ainda) a sensibilidade que existia em sua alma, que transbordava no talento e se estendia materializando nas mãos desse gênio imortal que um dia andou por terra!


Ludwig Van Beethoven Sonata Para Piano n. 14 [Moonlight]




Manhã de 6 de julho [de 1812]

Meu anjo, meu tudo, meu ser. Apenas algumas palavras hoje, à lápis (o seu). Até amanhã a minha morada estará definida. Que desperdício de tempo. Por que [sinto] esta tristeza profunda quando a necessidade fala? Pode o nosso amor resistir ao sacrifício, em não exigir a totalidade um do outro? Pode mudar o fato de que você não é toda minha nem sou todo seu? Oh, Deus! Olhe para a beleza da natureza e conforte o seu coração com o que deve ser. O amor exige tudo e com razão. Assim, eu estou em você e você em mim. Mas você se esquece facilmente que preciso viver para mim e para você. Se estivéssemos completamente unidos, você sentiria esta dor tão próxima quanto eu sinto. A minha viagem foi terrível; só cheguei ontem às 4 horas da manhã, uma vez que na falta de cavalos, o cocheiro escolheu um outro caminho, mas que caminho terrível. Na penúltima parada fui avisado para não viajar à noite, fiquei com medo da floresta, e isso só me deixou mais ansioso – e eu estava errado. O cocheiro precisou parar na estrada infeliz, uma estrada imprestável e barrenta. Se estivesse sem os apetrechos que levo comigo teria ficado preso na estrada. Esterhazy, percorrendo este caminho habitual, teve o mesmo destino com oito cavalos que eu tive com quatro. Senti algum prazer nisso, como sempre sinto quando supero com sucesso as dificuldades. Agora uma rápida mudança das coisas externas para as internas. Provavelmente nos veremos em breve, mas hoje não posso compartilhar contigo os pensamentos que tive durante estes poucos dias dias sobre a minha vida. Se os nossos corações estivessem sempre juntos, eu não teria nenhum deles. O meu coração está repleto de coisas que gostaria de dizer-te. Ah. Há momentos que sinto esse discurso não ser nada. Alegre-se. Você permanece [sendo] a minha verdade, o meu tesouro, o meu tudo como eu sou o teu. Os deuses devem nos mandar o restante, aquilo que deve ser para nós e será.
 Seu fiel Ludwig.


Bom dia, em 7 de julho [de 1812]

Embora ainda esteja na cama, os meus pensamentos vão até você, minha Amada Imortal, agora felizes, depois tristes, esperando para saber se o destino nos ouvirá ou não. Eu só posso viver completo contigo ou não viver. Sim, estou decidido a vaguear assim por muito tempo longe de você até que possa voar para os seus braços e dizer que estou em casa, e poder enviar a minha alma envolta em você ao reino dos espíritos. Sim, isto deve ser tão infeliz. Você será mais contida quando souber da minha fidelidade à você. Outra jamais poderá ter o meu coração, nunca, nunca, Oh, Deus! Por que um precisa estar separado do outro quando se ama. E, no entanto, a minha vida em Viena é agora uma vida miserável. O teu amor me faz ao mesmo tempo o mais feliz e infeliz dos homens. Na minha idade eu preciso de estabilidade, de uma vida tranqüila. Pode ser assim na nossa relação? Meu anjo, acabo de ser informado que o carteiro sai todos os dias. Por isso devo terminar logo para que você possa receber a carta logo. Fique tranqüila, somente através da consideração tranqüila de nossa existência podemos atingir o objetivo de vivermos juntos. Fique tranqüila, me ame, hoje, ontem, desejos sofridos por você, você, você, minha vida, meu tudo, adeus. Oh, continue a me amar, jamais duvide do coração fiel de seu amado.
Sempre teu
Sempre minha
Sempre nosso.


*fonte tirada da revista Bravo 100/Música Erudita

Pensamentos Rimados Num fim de Tarde


Vi esse poema em uma certa revista já extinta, meio elitizada ate, gostei muito desses versos, só que na revista não vinha o nome do autor, infelizmente! Acabou se tornando um dos meus poemas preferidos, vira e mexe eu o leio, resignado e esperançoso.
Eugene Lushpin - Twilight in Amsterdam

Pensamentos Rimados Num fim de Tarde

Não Existe um futuro sem dor do passado,
Nem fontes de amor que não tenham secado
Ou planos, que mesmo tão bem planejados
Não tenham destinos ou fins alterados.

É longo o caminho que corre sem volta
E estreito o limite que o tempo suporta
No trato da vida bem menos vivida
Do que se esperava por ser merecida.

Na estrada comprida, no adeus despedida
Nos olhos molhados, na mão estendida
Ainda restam imagens já quase esquecidas
Mas mesmo na névoa, ainda bem definidas

Vi o hoje passado, o ontem sumido,
As noites, as tardes, ao não resistindo
Como se retivessem o compasso das horas
Que passam ao meu largo, qual velas de um barco.
E levam as lembranças dos tempo antigos,
Nos ventos e acenos dos velhos amigos.